Basta uma ligação falsa para que o popular ‘171’, mais conhecido como crime de estelionato, convença a vítima a abrir sua conta bancária. Entre o público boomer (60+), a quantidade de denúncias cresce ano após ano: no Brasil, aproximadamente 5 processos por estelionato contra idosos são abertos por dia.
Os
dados foram divulgados pelo Escavador nesta
quarta-feira, 1º de julho, com quase cinco mil denúncias registradas entre 2023
e o final de maio de 2026. De acordo com a plataforma de dados jurídicos, os
crimes de estelionato contra idosos se intensificaram na última década.
Mantendo o ritmo atual, 2026 deve encerrar com cerca de 62% mais processos do
que em 2023.
O
início da análise identificou 1,1 mil processos em 2023, crescendo em uma curva
suave no ano de 2024, que fechou com 1,3 mil ações. Acompanhando o fenômeno dos
golpes virtuais, 2025 apresentou a maior quantidade de denúncias, com 1,7 mil
processos apresentados nos tribunais.
Levar
os casos à Justiça, após tentativas com os bancos, tornou-se um cotidiano na
vida do público mais velho. Segundo Dalila Pinheiro, Coordenadora Jurídica e
DPO do Escavador, os criminosos entram em contato com tons de urgência, se
passando por ‘gerentes de banco’, ou, em alguns casos, passando de setor em
setor da própria quadrilha, levando a vítima a ‘cair em uma arapuca’, como se
estivesse sendo assistida pelo time das agências bancárias.
“Um
dos casos mais comuns, quando referido ao crime de estelionato contra idosos, é
o de golpes relacionados à fraude bancária. Geralmente são encaminhados SMS ou
mensagens via WhatsApp, pedindo alguma confirmação: você reconhece esta compra?
Ao informar que não, uma equipe entra em contato com a vítima, precisamente
como os setores de prevenção à fraude dos bancos fazem. Os estelionatários, em
alguns casos, utilizam dados primários, como CPF, para que a engenharia social
(técnica de manipulação psicológica) tenha ainda mais efeito no público. Entre
os mais velhos, a dificuldade é maior, devido à adaptação tardia com a
tecnologia e o entendimento das linguagens e procedimentos”, explica a DPO.
Apesar
das campanhas de conscientização, o país está longe de frear os avanços do
crime de estelionato contra idosos. O fechamento parcial do primeiro semestre
de 2026 trouxe mais uma preocupação às autoridades, com 748 ações notificadas
aos tribunais; fatia que corresponde a 41,7% de todo o volume registrado em
2025. “Podemos entrar em um ano histórico de denúncias por crimes de
estelionato. Os idosos costumam ser o público mais comum, no entanto, todos
estão suscetíveis à engenharia social. O caminho que o dinheiro percorre também
é difícil de rastrear. As chamadas contas-laranja recebem os valores e,
geralmente, são instruídas a repassar de conta em conta, de certa forma,
‘limpando’ o dinheiro. Nesse método, ainda que o banco possa bloquear a conta
recebedora, a mesma já não deve estar com nenhum resquício do valor do golpe,
dificultando a restituição bancária e elevando o número de processos por casos
de estelionato no país”.
Ainda
segundo o Escavador, a quantidade de denúncias pode variar de lugar para lugar.
Entre as federações com a maior quantidade de processos por estelionato contra
idosos, o estado da Bahia ocupa o topo do ranking, com 580 denúncias, seguido
por Minas Gerais (542), São Paulo (458), Paraná (432), Rio de Janeiro (329),
Piauí (316), Santa Catarina (273), Mato Grosso do Sul (233) e Ceará, com 207
casos, no período entre 2023 e a última parcial de 2026.
Já
entre os que menos contabilizaram processos, está o estado do Acre, com apenas
três ações, seguido por Pernambuco (5), Rio Grande do Norte (13) e Maranhão
(14). “Uma onda de crimes de estelionato rompeu os estados e não se limitou à
fraude bancária. Esse tipo de crime, tipificado no Código Penal (Decreto-Lei nº
2.848/1940), especificamente em seu Artigo 171, estourou nas metrópoles por
meio de diferentes formas: compra de veículo, fraudes, golpes do PIX, boletos
falsos, fraudes imobiliárias, empréstimos consignados fraudulentos, golpe do
falso parente, entre vários outros. A engenharia social por trás dos golpes
também avança, conseguindo replicar faces, fazer chamadas de vídeo ‘ao vivo’,
criar locais falsos e outras artimanhas”, comenta Dalila.
Crimes
previstos no ‘Estatuto do Idoso’ acumulam alta consecutiva
Além
da preocupação que espreita o telefone, os processos por “crimes previstos no
Estatuto do Idoso” cresceram no país. Ainda segundo apuração do Escavador, as
infrações contra o Estatuto do Idoso já chegam a 29 mil ações no Brasil, com
uma média superior a 8,5 mil processos por ano.
“As
preocupações com o envelhecimento no Brasil ampliaram para além da saúde. Hoje,
há um desafio crescente relacionado à proteção patrimonial, financeira e até
emocional da população idosa. À medida que o país envelhece e a digitalização
dos serviços avança, cresce também a necessidade de mecanismos de prevenção,
educação digital e proteção jurídica capazes de reduzir a vulnerabilidade desse
público diante de golpes, fraudes e outras formas de violência”, conclui
Dalila.
Confira
a lista de processos por estelionato contra idosos nos estados (2023 a maio de
2026)
Bahia
(BA) – 580
Minas
Gerais (MG) – 542
São
Paulo (SP) – 458
Paraná
(PR) – 432
Rio
de Janeiro (RJ) – 329
Piauí
(PI) – 316
Santa
Catarina (SC) – 273
Mato
Grosso do Sul (MS) – 233
Ceará
(CE) – 207
Goiás
(GO) – 193
Rio
Grande do Sul (RS) – 175
Sergipe
(SE) – 133
Pará
(PA) – 127
Paraíba
(PB) – 67
Alagoas
(AL) – 66
Amazonas
(AM) – 60
Espírito
Santo (ES) – 58
Distrito
Federal (DF) – 53
Tocantins
(TO) – 53
Amapá
(AP) – 43
Mato
Grosso (MT) – 18
Maranhão
(MA) – 14
Rio
Grande do Norte (RN) – 13
Pernambuco
(PE) – 5
Acre
(AC) – 3



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente essa postagem
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.