Prof. Dr. Geraldo Filho (UFDPar – 19/07/26)
Alguém me disse que depois de quase 35 anos de vida acadêmica, pelos livros que escrevi; pelos artigos científicos que publiquei; pelos artigos e crônicas nos blogs e redes sociais que divulguei; pela intensidade das minhas aulas... que eu não precisava provar mais nada! Mas, intelectualmente, eu sempre fui inquieto e, prematuramente, me dediquei aos livros, herdando o hábito de leitura da minha mãe, Maria de Lourdes Barreto! Os livros são portas abertas para novas experiências, e eu continuo as abrindo, ou reabrindo!
A curiosidade por eles e a angústia de adolescente precoce a respeito do sentido da existência (o que me levou a procurar Deus nos textos e ritos de religiões ao meu alcance), me colocaram em contato com livros espíritas emprestados aos meus pais, no Recife, da segunda metade dos anos 70. Eram o Livro dos Espíritos; o Livro dos Médiuns; e O Evangelho Segundo o Espiritismo, obras dificílimas pelos termos novos e pelo choque das ideias! Mas os li, disciplinadamente, como um “nerd” que sempre fui, porém... eu era muito jovem para assimilar a profundidade dos conhecimentos expostos! Tinha 13/14 anos, a sexualidade despertava forte, a sedução dos prazeres do Recife e depois de Fortaleza, já nos anos 80, foram muito mais convincentes... principalmente porque a bagagem de conhecimento que já adquirira me dava acesso às pessoas mais velhas, e às “brincadeiras gostosas” de adultos! Lembro que em um Centro Espírita, de Fortaleza, disseram que se eu quisesse desenvolver a mediunidade teria de abdicar do cigarro e do álcool... huuummm... eu adorava fumar, cerveja, música, dançar e namorar! Então eu me afastei!
A vida acadêmica começou aos 19 anos, como aluno e bolsista de iniciação científica (UFC e CNPq), e aos 26, como professor universitário, dedicando-me inicialmente à sociologia e ampliando para outras áreas até o momento... e aí, eis que, de repente, o passado retornou, reabrindo antiga porta!
Em Fortaleza, no apartamento do meu irmão, descobri um romance espírita, abordando o tema suicídio, rapidamente o devorei, com uma particularidade importante, eu tinha 58 anos, uma trajetória profissional sólida e uma visão de mundo abrangente! Tracei um programa de estudos, com o rigor do pesquisador científico testado: revisão bibliográfica dos 13 livros de André Luiz, que é a narrativa magistral da vida terrena e espiritual desse ser iluminado, ao mesmo tempo em que ele expõe e explica toda a fundamentação doutrinária do espiritismo, ouso dizer que é o kardecismo desenvolvido a partir de um romance bibliográfico magnífico! Dois livros dão apoio a esse trabalho, uma excelente Bíblia de estudo (a
NAA: Nova Almeida Atualizada) e O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Na primeira parte da vida acadêmica, como professor universitário, nos anos 90 até por volta de 2005, eu definia o humano como um ser de razão que lutava por realizar seus interesses, modelados pela relação entre instintos (natureza) e ambiente (cultura), porém, em razão das minhas próprias experiências desconfiava da precariedade dessa definição! No entanto, no meio universitário e intelectual em geral ela é cômoda, conveniente, pois passa por cima da polêmica sobre a origem do homem, se criação divina ou simplesmente evolução natural! A maioria dos professores foge rápido dessa questão existencial!
De 2005 para frente, com os estudos avançados de biologia evolutiva e, em seguida, genética populacional e neurociência cognitiva e comportamental (isto é, a evolução biológica do cérebro e a relação direta com o comportamento), percebi que emoções e sentimentos são misteriosos e complexos demais, exercendo influência enorme sobre a razão humana, sendo muito difícil explicá-los somente pela relação instintos/ambiente! Essa constatação um tanto angustiante, não confessada explicitamente, mas presente nas entrelinhas dos seus livros e artigos, é compartilhada por autores como Edgar Morin, Edward Wilson, Steven Pinker e Antônio Damásio! Assim, eu tentei, como eles, um conceito conciliatório entre o certo e o incerto misterioso, definindo o humano como um ser de razão e emoção (vivida no cotidiano como sentimentos), que lutava por realizar seus interesses, condicionado pelo ambiente cultural no qual estava inserido.
De 2023 em diante, na medida que me adiantava no programa de estudos da obra de André Luiz, os conceitos lidos no passado foram sendo recordados e os reflexos aparecendo na minha vida pessoal e profissional! Escrevi um artigo cientifico voltado para alunos de Licenciatura em Biologia, demonstrando à luz da biologia evolutiva e da neurociência a possibilidade de “conciliar” a evolução darwiniana com a alegoria da criação divina exposta no Livro de Gênesis, o objetivo era preparar os futuros professores com conhecimentos consistentes, para enfrentarem a questão existencial a respeito da origem do homem nas futuras salas de aula com competência! Não havia nenhuma argumentação doutrinária, pois no artigo, eu deixei claro a possibilidade de se defender a origem humana apenas com as leis da seleção de Charles Darwin, cabendo ao leitor se decidir de acordo com suas próprias vivências e convicções.
Por pirraça, enviei o artigo para uma revista de biologia, da UFRJ, voltada, segundo ela, para licenciatura.
Eu antecipei o resultado, mas queria ver os argumentos... nenhum! Não aceitaram porque, de acordo com eles, estava fora do padrão da revista, dos seus objetivos! Bem, eu que já publiquei em revistas de muito maior peso científico, com 58 anos já estava “cagando e andando” para esse pessoal na época, a maioria não tem nenhuma preocupação com a formação dos alunos em vários domínios do conhecimento, o que lhe interessa é impor somente um tipo de concepção, em regra materialista, vulgar e grosseira! Publiquei o artigo como capitulo de livro de uma coletânea de trabalhos científicos, em Curitiba.
Encontrei, recentemente, em Viktor Frankl, o criador da Terceira Escola de Psicanálise, um pesquisador autêntico e honesto que por caminhos diferentes fortaleceu a mudança de paradigma definitiva da minha caminhada pessoal e profissional! Frankl sofreu na carne e na alma a maldade humana extrema, nos campos de concentração da Alemanha nazista perdeu toda a família, inclusive a mulher, e por pouco não perdeu a vida pelos castigos e privações físicas, no entanto, sobreviveu agarrado a um sentido da existência que depois ele descobriu ser a presença de Deus, o que, posteriormente, depois da 2a Guerra, ele revelou nos livros Em Busca de Sentido e A Presença Ignorada de Deus!
Assim, meus queridos, não precisa ser obrigatoriamente espírita para se chegar até o Divino Mestre, basta arrancar as traves dos olhos e enxergar para além do meramente material! Portanto, a definição do humano com a qual venho trabalhando, nos últimos anos ficou com a seguinte fórmula: O humano é um ser de razão e sentimentos, que é a manifestação do princípio espiritual mediante a expressão dos genes, em sua relação com o ambiente natural e cultural.
Dificilmente voltarei aos centros espíritas, meu caminho na doutrina parece ser do “meu jeito”, como canta Frank Sinatra, em My Way! Abri novamente a antiga porta e entrei definitivamente! Deixei o cigarro, mas ainda adoro as boas cervejas...


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