26 de fev. de 2026

Análise: Rafael hoje é maior que o petismo, gostem ou não

A pergunta mais importante da política piauiense hoje não é quem tem mais história, nem quem ocupa o cargo mais alto. A pergunta essencial, inclusive para a oposição, é estratégica e eleitoral ao mesmo tempo. Em uma disputa direta entre Wellington Dias e Rafael Fonteles, quem teria mais capacidade de sentar à mesa, negociar apoio, organizar o sistema político e articular? E, sobretudo, em quem as pessoas votariam?

Foto: Reprodução/IARafael supera o petismo que o criou, agora irá superar Wellington?
Rafael supera o petismo que o criou, agora irá superar Wellington?

São perguntas distintas. E as respostas não são necessariamente as mesmas.

Do ponto de vista da engenharia política, Wellington é um operador de primeira grandeza. Construiu quatro mandatos de governador, consolidou maioria legislativa por ciclos sucessivos, organizou alianças amplas e soube dialogar com campos ideológicos distintos. Sua habilidade de articulação é reconhecida inclusive por adversários. Ele compreende o funcionamento do sistema, domina a lógica federativa e mantém trânsito institucional relevante.

Mas eleições não são apenas produto de articulação. São produto de percepção pública, fadiga política, imagem e momento histórico.

O fator desgaste é central. Wellington carrega o peso de longos anos como eixo do poder estadual. Sua imagem está associada a um ciclo extenso. Ainda que preserve capital político, não é mais a novidade. E em contextos de fadiga, o eleitor tende a buscar a figura que simboliza continuidade com renovação. Wellington tem altíssima rejeição, isso é um fato.

É nesse ponto que Rafael Fonteles opera.

Rafael construiu uma estratégia de consolidação baseada em três pilares: infraestrutura física, centralização da execução e comunicação institucional agressiva. O investimento em obras estruturantes, especialmente rodovias e infraestrutura logística, não é apenas política pública. É política eleitoral. Estrada asfaltada é símbolo visível de presença dele. É concreta, fotografável e facilmente apropriável pelo discurso oficial, é possível correr nela e postar no Instagram.

Há, no entanto, um custo político nessa escolha. Ao optar por executar diretamente as obras em vez de transferir recursos financeiros aos municípios, Rafael reduz o protagonismo dos prefeitos. Prefeitos preferem verba carimbada, autonomia para licitar e capitalizar politicamente. O modelo adotado gera certo desconforto municipalista. Não é uma ruptura, mas é um ruído.

O cálculo do governo é claro. Prefeito pode reclamar nos bastidores. Eleitor comum reage ao que vê. E o que vê são placas, máquinas, inaugurações e presença constante do governador. Rafael então coloca os prefeitos em péssimos lençóis, pois ou perdem autonomia ou perdem poder.

O segundo eixo é a segurança pública. Ainda que críticas persistam, a narrativa oficial sustenta melhora. Estatísticas são divulgadas com regularidade e a publicidade institucional amplifica resultados. Aqui não importa apenas o dado objetivo, mas a percepção construída. Parte significativa da população acredita que houve avanço. E em política, percepção consolida voto.

O terceiro elemento é a comunicação. O governo Rafael tem operado com publicidade institucional mais sofisticada do que ciclos anteriores. Não atua apenas em resposta a crises. Atua na formação permanente de imagem. A narrativa é coerente, contínua e distribuída. Isso cria uma blindagem reputacional que reduz o impacto de desgastes pontuais, o que são muitos, é claro.

Quando se observa o conjunto, percebe-se que Rafael começa a ultrapassar o papel de sucessor político. Ele constrói base própria. Sua adesão popular, em determinados recortes, já não depende exclusivamente do legado de Wellington nem da força simbólica de Luiz Inácio Lula da Silva.

E aqui reside a questão estrutural.

Se Rafael se consolidar como liderança autônoma, não será apenas uma disputa interna no campo governista. Será a reorganização do eixo de poder. Ele deixará de ser herdeiro do petismo para se tornar o centro gravitacional do sistema político estadual.

Isso tem implicações profundas. A consolidação de Rafael significaria o enfraquecimento do petismo como marca dominante no Piauí. O lulismo continuaria relevante, mas não seria mais o fator determinante das decisões estratégicas locais. Rafael passaria a definir candidaturas majoritárias, composições legislativas e alianças regionais.

Mais do que isso, influenciaria diretamente o ciclo de 2030. Caso Wellington não dispute novamente o governo e concentre-se em eventual reeleição ao Senado, dependerá do ambiente político construído sob liderança de Rafael. Em termos práticos, o atual governador poderia tornar-se fiador ou obstáculo.

Portanto, a análise precisa separar duas dimensões. Wellington continua sendo o articulador mais experiente. Mas Rafael é quem detém hoje o controle da máquina, da narrativa e da visibilidade cotidiana. Em eleições majoritárias, esses fatores pesam.

A oposição, se deseja compreender o cenário real, precisa abandonar a leitura nostálgica do passado e observar os indicadores atuais de adesão e desgaste. Política é dinâmica. Capital simbólico envelhece. Estruturas de poder se renovam.

A pergunta essencial permanece. Quem articula melhor? Wellington.
Quem hoje tem maior capacidade de mobilização popular e menor desgaste imediato? Rafael.

Se essa tendência se consolidar, o Piauí entrará em um novo ciclo. Não necessariamente de ruptura ideológica, mas de substituição de liderança. E quem controla a liderança controla o futuro político do Estado.

Fonte: Portal AZ

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