9 de jan. de 2026

Do Chuí ao Oiapoque: caminhada histórica fortalece a Rede Nacional de Trilhas


Ao chegar ao Oiapoque (AP), Johan foi recebido por Waldemar Justo, gestor do ICMBio e diretor na Rede Brasileira de Trilhas

O francês Johan Grondin, aos 47 anos, realizou ao fim do último ano um grande sonho: cruzar o Brasil de ponta a ponta, de Sul ao Norte, especificamente do Chuí (RS) ao Oiapoque (AP). Este será o maior corredor ecológico da América Latina, conectando cerca de 34 Unidades de Conservação (UCs) federais. 

Foram 9.100 quilômetros, passando por diversos biomas brasileiros, mapeando a futura Trilha Oyapoque x Barra do Chuí. Em seu périplo, ele contou com apoio de servidores dos parques e reservas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), bem como de voluntários da Associação Rede Brasileira de Trilhas. 

No dia 23 de fevereiro de 2024, quando saiu de seu destino na Barra do Chuí levando somente o necessário, seu único objetivo era realizar a travessia unindo dois pontos extremos do país. Não havia qualquer planejamento ou prazo de chegar ao destino, uma trilha inédita, que não havia sido percorrida por ninguém.  

Seu destino se cumpriu no dia 20 de dezembro, mantendo a simplicidade que marcou todo o percurso. Foram quase dois anos de caminhada, 22 meses, auxiliando os Ministérios Turismo (MTur) e do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), ao qual o ICMBio se vincula, a mapear rotas estratégicas da grande trilha que será inaugurada em breve.  

Um objetivo pessoal que se conecta com os trabalhos do Instituto, especialmente pela Coordenação-Geral de Uso Público e Serviços Ambientais (GGUP) do ICMBio, que articula, em nível governamental, iniciativas para estruturar e ampliar projetos de trilhas de longo curso no Brasil. O movimento ganhou reconhecimento legal em 2018, com a publicação da Portaria Conjunta MMA/MTur nº 407, que instituiu a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade – Rede Trilhas, inserida no Programa Nacional de Conectividade de Paisagens. 

"Do Oiapoque ao Chuí” 

A Trilha foi concebida para funcionar como um corredor natural que conecta centenas de Unidades de Conservação, muitas delas federais, espalhadas pelos biomas brasileiros. “Trechos já estruturados, como a Trilha Amazônia Atlântica no Pará, cruzam reservas extrativistas federais e demonstram como essa grande rota pode integrar áreas protegidas ao longo do território nacional”, explica o diretor de Áreas Protegidas do MMA, Pedro Menezes.  

A política pública tem por objetivo unir trilhas já existentes com a implementação de novas trilhas, criando um corredor verde contínuo que também possa ser usado pela fauna. Hoje já existem mais de 7000 km implementados e sinalizados com as pegadas pretas e amarelas que são a marca registrada da Rede Trilhas. Mapear essas conexões, em alguns lugares, entretanto, ainda era um desafio.  

“A pernada de Johan foi pioneira, pois, se a façanha de conectar os dois extremos do litoral brasileiro já havia sido feita no século passado por Sérgio Rondelli, sempre seguindo a beira do mar, agora realizou-se uma rota diferente, conectando trilhas já implementadas pela Rede Trilhas e alternando litoral e interior, praias e montanhas”, afirma Carla Guaitanele, coordenadora-geral da GGUP/ICMBio. 

O percurso: biomas e adaptação 

A caminhada começou pelo litoral do Rio Grande do Sul, um território moldado pelo encontro entre o vento, o mar e a areia. Foram cerca de 700 quilômetros de praias, muitas vezes isoladas, como a Praia do Cassino, a maior praia em extensão do mundo, onde o horizonte parece não ter fim. Nesse bioma costeiro, o clima muda rápido e impõe respeito.  

Do litoral, a travessia avançou para as áreas de clima úmido e relevo elevado, cortando a Serra da Mantiqueira, cadeia montanhosa que se estende por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde a vegetação é densa e o frio e a neblina contrastam com o cenário anterior.  

Ao entrar no Cerrado, o caminhar ganhou outro ritmo. Considerado o “berço das águas”, o bioma mescla campos abertos, árvores retorcidas e uma biodiversidade que resiste ao fogo e à seca. A travessia exigiu atenção e adaptação, preparando o corpo e a mente para o maior desafio da jornada: a Caatinga. 

Na Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, Johan enfrentou seu maior teste de resiliência. O calor intenso, escassez de água e as longas distâncias entre povoados exigiram mais do que força física, mas equilíbrio emocional e persistência.  

Na etapa final, o cenário foi amazônico. Na Ilha de Marajó (PA), onde a Amazônia encontra o oceano, foram cerca de 500 quilômetros atravessando grandes fazendas, sob o sol intenso. Entre campos alagáveis e vegetação exuberante, Johan dividiu o caminho com a fauna local: búfalos, cobras e aves, que fazem parte da dinâmica natural da ilha. 

“Tudo consiste em se adaptar, senão você não consegue atravessar. Para uma caminhada assim, você não precisa se preparar. O corpo e a mente acabam se adaptando”, indica Johan Grondin. 

Agora, depois de chegar ao Oiapoque, o caminhante tem planos de escrever um livro relatando sua experiência e cogita conectar o Brasil de Leste a Oeste, desde o Cabo Branco (PB) à Serra do Divisor (AC). 

A Rede Brasileira de Trilhas 

A Rede é a principal política pública de áreas protegidas do Brasil. Ela conecta UCs e fragmentos florestais, formando corredores ecológicos que ajudam na manutenção de processos ecológicos e na conectividade da fauna e flora. Essa política inovadora une lazer, conservação e desenvolvimento econômico, tendo as trilhas de longo curso como estratégia de conexão entre pessoas, flora e fauna. 


O Arroio Chuí é um pequeno curso d’água localizado na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, sendo o ponto extremo sul do Brasil - Foto: Divulgação/Prefeitura do Chuí


A Ponte Binacional Franco-Brasileira atravessa o rio Oiapoque, ligando as cidades de Oiapoque, Brasil, e São Jorge do Oiapoque, na Guiana Francesa - Foto: Divulgação/Fecomércio Amapá.

Marcos internacionais fortalecem a agenda das trilhas 

No último ano, 2025, no Congresso Mundial da Natureza da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, as trilhas foram reconhecidas oficialmente como uma ferramenta vital para a conservação da natureza. 

Enquanto isso, no Brasil, mas ainda no campo internacional, o projeto da Trilha Amazônia Atlântica, a maior trilha sinalizada da América Latina, foi inaugurado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) em Belém, Pará, como uma iniciativa para promover a conservação, a bioeconomia e o turismo de base comunitária na região.  

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