Ao chegar ao Oiapoque (AP), Johan foi recebido por Waldemar Justo, gestor do ICMBio e diretor na Rede Brasileira de Trilhas
Foram 9.100 quilômetros, passando por diversos
biomas brasileiros, mapeando a futura Trilha Oyapoque x Barra do
Chuí. Em seu périplo, ele contou com apoio de servidores dos parques
e reservas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio),
bem como de voluntários da Associação Rede Brasileira de Trilhas.
No dia 23 de fevereiro de 2024, quando saiu de
seu destino na Barra do Chuí levando somente o necessário, seu único objetivo
era realizar a travessia unindo dois pontos extremos do país. Não
havia qualquer planejamento ou prazo de chegar ao destino, uma trilha inédita,
que não havia sido percorrida por ninguém.
Seu destino se cumpriu no dia 20 de
dezembro, mantendo a simplicidade que marcou todo
o percurso. Foram quase dois anos de caminhada, 22
meses, auxiliando os
Ministérios Turismo (MTur) e do Meio Ambiente e Mudança do
Clima (MMA), ao qual o ICMBio se vincula, a mapear
rotas estratégicas da grande trilha que será inaugurada em
breve.
Um objetivo pessoal que se conecta com os
trabalhos do Instituto, especialmente pela Coordenação-Geral de Uso
Público e Serviços Ambientais (GGUP) do ICMBio,
que articula, em nível governamental, iniciativas para estruturar e ampliar
projetos de trilhas de longo curso no Brasil. O movimento ganhou reconhecimento
legal em 2018, com a publicação da Portaria Conjunta MMA/MTur nº 407,
que instituiu a Rede Nacional de Trilhas de Longo
Curso e Conectividade – Rede Trilhas, inserida no Programa Nacional
de Conectividade de Paisagens.
"Do Oiapoque ao Chuí”
A Trilha foi concebida para funcionar como
um corredor natural que conecta centenas de Unidades de Conservação,
muitas delas federais, espalhadas pelos biomas brasileiros. “Trechos já
estruturados, como a Trilha Amazônia Atlântica no Pará, cruzam reservas
extrativistas federais e demonstram como essa grande rota pode integrar áreas
protegidas ao longo do território nacional”, explica o diretor de Áreas
Protegidas do MMA, Pedro Menezes.
A política pública tem por objetivo unir
trilhas já existentes com a implementação de novas trilhas, criando um
corredor verde contínuo que também possa ser usado pela fauna. Hoje já existem
mais de 7000 km implementados e sinalizados com as pegadas pretas e amarelas
que são a marca registrada da Rede Trilhas. Mapear essas conexões, em alguns
lugares, entretanto, ainda era um desafio.
“A pernada de Johan foi pioneira, pois, se a façanha de
conectar os dois extremos do litoral brasileiro já havia sido feita no século
passado por Sérgio Rondelli, sempre seguindo a beira do mar, agora
realizou-se uma rota diferente, conectando trilhas já implementadas pela
Rede Trilhas e alternando litoral e interior, praias e montanhas”, afirma Carla Guaitanele, coordenadora-geral da GGUP/ICMBio.
O percurso: biomas e adaptação
A caminhada começou pelo litoral do Rio
Grande do Sul, um território moldado pelo encontro entre o vento, o mar e a
areia. Foram cerca de 700 quilômetros de praias, muitas vezes
isoladas, como a Praia do Cassino, a maior praia em extensão do
mundo, onde o horizonte parece não ter fim. Nesse bioma costeiro, o clima
muda rápido e impõe respeito.
Do litoral, a travessia avançou para as áreas
de clima úmido e relevo elevado, cortando a Serra da
Mantiqueira, cadeia montanhosa que se estende por São Paulo, Minas Gerais
e Rio de Janeiro, onde a vegetação é densa e o frio e
a neblina contrastam com o cenário anterior.
Ao entrar no Cerrado, o caminhar ganhou
outro ritmo. Considerado o “berço das
águas”, o bioma mescla campos abertos, árvores retorcidas e
uma biodiversidade que resiste ao fogo e à seca. A travessia exigiu atenção e
adaptação, preparando o corpo e a mente para o maior desafio da jornada: a
Caatinga.
Na Caatinga, bioma exclusivamente
brasileiro, Johan enfrentou seu maior teste de resiliência. O calor
intenso, escassez de água e as longas distâncias entre povoados
exigiram mais do que força física, mas equilíbrio emocional e
persistência.
Na etapa final, o cenário foi
amazônico. Na Ilha de Marajó (PA), onde a Amazônia encontra o
oceano, foram cerca de 500 quilômetros atravessando grandes fazendas,
sob o sol intenso. Entre campos alagáveis e vegetação exuberante, Johan dividiu
o caminho com a fauna local: búfalos, cobras e aves, que fazem parte da
dinâmica natural da ilha.
“Tudo consiste em se adaptar, senão você não consegue atravessar. Para
uma caminhada assim, você não precisa se preparar. O corpo e a mente
acabam se adaptando”, indica Johan Grondin.
Agora, depois de chegar ao Oiapoque, o caminhante tem planos de escrever um livro relatando sua experiência e cogita conectar o Brasil de Leste a Oeste, desde o Cabo Branco (PB) à Serra do Divisor (AC).
A Rede Brasileira de Trilhas
A Rede é a principal política pública de
áreas protegidas do Brasil. Ela conecta UCs e fragmentos florestais, formando
corredores ecológicos que ajudam na manutenção de processos ecológicos e na
conectividade da fauna e flora. Essa política inovadora une lazer, conservação
e desenvolvimento econômico, tendo as trilhas de longo curso
como estratégia de conexão entre pessoas, flora e fauna.
O Arroio Chuí é um pequeno curso d’água localizado na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, sendo o ponto extremo sul do Brasil - Foto: Divulgação/Prefeitura do Chuí
A Ponte Binacional Franco-Brasileira atravessa o rio Oiapoque, ligando as cidades de Oiapoque, Brasil, e São Jorge do Oiapoque, na Guiana Francesa - Foto: Divulgação/Fecomércio Amapá.
Marcos internacionais fortalecem a agenda das
trilhas
No último ano, 2025, no Congresso Mundial
da Natureza da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza),
realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, as trilhas foram
reconhecidas oficialmente como uma ferramenta vital para a conservação da
natureza.
Enquanto isso, no Brasil, mas ainda no
campo internacional, o projeto da Trilha Amazônia Atlântica,
a maior trilha sinalizada da América
Latina, foi inaugurado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima (COP30) em Belém, Pará, como uma iniciativa
para promover a conservação, a bioeconomia e o turismo de base comunitária na
região.





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