No dia 5 de outubro de 2014, os piauienses foram às urnas e
elegeram os deputados estaduais que iriam ocupar as 30 cadeiras no
plenário da Assembleia Legislativa do Estado. Passados pouco mais de
cinco meses do dia da eleição, o cenário político naquela Casa foi
completamente alterado, não pela decisão do eleitor, mas por arranjos
políticos realizados entre partidos, parlamentares, o governador
Wellington Dias (PT) e até mesmo o prefeito Firmino Filho (PSDB).
Wellington visita Assembleia e pede apoio do deputados Foto: Assessoria da AssembleiaDesde a posse dos deputados no dia primeiro de janeiro até hoje, a
Assembleia Legislativa já realizou dez vezes a chamada “dança das
cadeiras” e alterou de forma significativa a composição do parlamento.
Saíram deputados eleitos e entraram os suplentes. As mudanças realizadas serviram para acomodar os aliados políticos e
possibilitar a chamada “governabilidade” a Wellington Dias. Os partidos
que foram beneficiados com cargos na administração direta do Estado e
aqueles que tiveram os suplentes convocados passam a integrar a base e a
partir de então passam a “dever” lealdade ao governo durante as
votações. Diante dessa lógica política, o eleitor elege, mas quem decide quem
permanece ou deixa o parlamento é o governo. Apesar do Poder Executivo e
Legislativo serem independentes, as alterações realizadas em um acabam
interferindo diretamente no outro. Com isso, a Assembleia eleita em
outubro não é mais a mesma e o eleitor que não for atento pode estar
esperando resultados de um deputado que nesse momento deve encontrar-se
na verdade à frente de uma secretaria. DANÇA DAS CADEIRAS Com a posse do deputado Ziza Carvalho (PROS) na secretaria de Meio
Ambiente, o governador Wellington Dias garante que a composição do
chamado primeiro escalão do governo foi concluída. Para isso, seis
deputados pediram afastamento da Assembleia para ocupar secretarias.
Logo em seguida, foi a vez de dois suplentes deixarem àquela Casa para
que mais aliados pudessem ser acomodados.
Desde eleito governador já vitisou o parlamento três vezes Foto: Thiago Amaral/O OlhoFIRMINO TAMBÉM CONTRIBUIU PARA DANÇA AS CADEIRAS A primeira mudança foi provocada pelo prefeito Firmino Filho (PSDB). O
tucano convidou o deputado Luciano Nunes (PSDB), para assumir a
Fundação Municipal de Saúde (FMS). Com isso, a vaga de deputado foi
ocupada pelo suplente Antônio Félix (PSD). A mudança provocada por Firmino visava acomodar o PSD aliado político
do tucano na capital. O partido ainda insatisfeito com o tratamento que
tem recebido do prefeito e vem ameaçando deixar a base. Para evitar
essa perda no ano véspera das eleições, Firmino decidiu realizar a
primeira mudança na composição da Assembleia. De lá para cá, o governador Wellington Dias terminou de realizar as
mudanças necessárias para acomodar os aliados. As primeiras mudanças
realizadas pelo governador visavam eleger o deputado Fábio Novo (PT)
como presidente da Assembleia Legislativa. Apesar do esforço o governo
foi derrota e o deputado Themístocles Filho (PMDB) venceu a disputa. De uma caneta só o petista levou para secretarias os deputados
Gessivaldo Isaias (PRB), Nerinho (PTB), Jannaína Marques (PTB), Hélio
Isaías (PTB), Francisco Limma (PT) e Fábio Xavier (PR). Saíram os
deputados eleitos pelo povo e assumiram os suplentes, Belê (PSB), Ziza
Carvalho (Pros), Aluísio Martins (PT), Cícero Magalhães (PT), Henrique
Rebelo (PT) e Joel Rodrigues (PTB). Todos foram aliados políticos e contribuíram para a eleição de
Wellington de forma direta ou indireta. Até mesmo a deputada Belê (PSB),
que é de partido de oposição e fez parte da coligação adversária foi
beneficiada retornando à Casa. Apesar disso, o deputado fez campanha
para Wellington na região de Picos. Com a necessidade de acomodar mais aliados políticos, Wellington Dias
convocou Henrique Rêbelo para o comando da Secretaria de Assistência
Social (Sasc) e Ziza Carvalho para a secretaria de Meio Ambiente. Com
isso, assumiram os suplentes Francis Lopes (PRP) que deixou o comando da
Fundação de Cultura do Estado (Fundac) e João de Deus (PT), que assumiu
o posto de líder do governo.
Dança das cadeiras beneficia os partidos Foto: João Alberto/O OlhoMUDA-SE O DEPUTADO, MUDAM-SE OS INTERESSES Quando o governador convida um deputado para assumir uma secretária
no governo, ele não altera apenas o quadro de partidos beneficiados com
cadeiras no parlamento, mas também, os interesses que são defendidos
naquela Casa. Para o cientista político e professor da Universidade
Federal do Piauí (UFPI), Ricardo Arraes, essa prática considerada comum
pelos políticos representa uma clara interferência do Poder Executivo no
Legislativo. Enquanto o eleitor elege um deputado para defender determinado
interesse, o governador altera o quadro político e com isso a vaga
poderá ser assumida por um parlamentar com posicionamento completamente
contrário. “Os políticos e partidos são claramente beneficiados. Já o
eleitor sai perdendo. O problema é que o cálculo feito nesse caso é
político. O governador afirma que chamou pela competência, mas ele
encontraria pessoas competentes em outros quadros. O cálculo é político e
o eleitor, infelizmente, não faz esse cálculo. No Brasil ainda se vota
muito com o coração, simpatia e não com a razão”, declarou. Ricardo Arraes chama atenção para a clara interferência do Poder
Executivo no resultado da eleição. “Não falo de interferências na
campanha, mas após o resultado. O eleitor elegeu uma Assembleia e o
governador para atender interesses políticos altera a vontade do
povo. Isso é visto como normal, ninguém critica e o Poder Judiciário
age como se não tivesse ocorrendo nada. É uma interferência clara”,
destacou. O cientista defende que esta questão possa fazer parte de uma
discussão futura sobre reforma política no país. “Acredito que essa é
uma discussão para a reforma política. Se necessitaria de uma lei para
regulamentar essa prática”, disse.
SUPLENTES REPRESENTAM MAIS GASTOS Quando um deputado pede afastamento da Assembleia Legislativa do
Piauí para assumir uma secretaria no governo ou na prefeitura, ele ainda
continua recebendo o salário de deputado no valor de R$ 25 mil. O
suplente que assume no lugar do licenciado também recebe o mesmo
salário.
Diante
das mudanças realizadas na composição da Casa, a Assembleia tem pago 10
suplentes a mais. São 40 deputados em vez dos 30 eleitos pelo povo no
dia 5 de outubro. Isso representa um acréscimo de R$ 250 mil a mais nas
contas da Assembleia Legislativa nos gastos com os parlamentares apenas
com o salário. Além dos vencimentos existem outros gastos com a verba de gabinete de
R$ 80 mil paga a cada parlamentar. Esse recurso é utilizado para
custear despesas como pagamento de assessores parlamentares,
combustíveis, diárias em viagens, transporte e consultorias fixas ou
ocasionais. Além disso, eles têm direito a verba indenizatória, ou seja,
ressarcimentos feitos nas atividades parlamentares. Cada deputado tem
direito a R$ 32 mil por mês com as verbas que ajudam nas despesas
parlamentares. Após a polêmica envolvendo os gastos com os suplentes, a Assembleia
decidiu não pagar o salário dos suplentes que assumiram, mas logo se
afastaram para tomar posse como secretários. Esse é o caso de Henrique
Rebelo (PT) que assumiu a Sasc e Ziza Carvalho (Pros), que assumiu a
pasta do Meio Ambiente.
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