Conheci há seis anos um garoto muito inteligente e
saudável. Na época ele tinha dez anos. Ele ainda mora na mesma casa, num bairro
pobre da nossa Parnaíba. A surpresa que tive ao reencontrá-lo outro dia é que
aos 16 anos estava entregue ao crack e o que é pior, usado como instrumento das
gangues na rede de distribuição das drogas. Lembrei que ele brincou com meu
filho da sua mesma idade. Causou-me um tremendo mal estar vê aquele jovem sem
perspectiva nenhuma e ao mesmo tempo vi nele a imagem do meu filho que se
prepara para ingressar numa faculdade. O que os separa? Qual a responsabilidade
que temos sobre isso? Qual o papel do poder público no que tange à
responsabilidade em permitir um futuro melhor aos nossos jovens? O que está
sendo feito na repressão do tráfico de drogas? Em nível local qual a política
pública para o enfrentamento das drogas? Há apoio para o tratamento de
dependentes químicos?
Partindo deste caso real quero refletir sobre o nosso papel
enquanto cidadãos e dos agentes públicos. Qual é o projeto político que está em
curso em Parnaíba? Com a nossa ação ou omissão, qual o tecido social que
estamos montando? O que ainda pode ser feito?
A atual administração conduzida pelo jovem Florentino Neto
(PT) parece desnorteada ou não? Será que a estratégia de poder é mais
importante que a vida das pessoas? Estarão certos eles que conduzem uma gestão
medíocre, porém ancorada na máxima de que o “povo” tem memória curta e se deixa
levar pelas pequenas e falsas vantagens apresentadas nas vésperas de um pleito
eleitoral?
Eles não se deram conta, nem nós, mas não é só a corrupção que se assola
no meio apodrecido da política, ao fim, o prejuízo maior está na falta de
esperança que se está perdendo. O povo não tem mais em quem acreditar, em quem
confiar. Por isso, a irresponsabilidade, a falta de compromisso e o desleixo da
ação pública transformaram, em boa medida, a classe política na mais
desacreditada de toda a sociedade.
Olhando como olhamos para a política depois que se revelaram as
primeiras sujeiras da Operação “Lava Jato” fica difícil confiar se os processos
eleitorais são legítimos de fato. O dinheiro faz toda a diferença! Fez em 2012?
E em 2014? Fará em 2016?
Mal saímos de uma eleição e já assistimos as articulações para o pleito
de 2016. Quando se fala em sucessão municipal muitos dizem que dificilmente se
“toma” o poder do atual prefeito, afinal ele tem a “máquina” que se soma ao
governo do estado a partir de janeiro de 2015 e de quebra o governo federal. Como
enfrentar toda essa estrutura? Este é o principal argumento pautado nas mais
diversificadas rodas que trata do assunto, independente do nível social ou
econômico dos participantes.
Não se questiona porque não se desenvolvem políticas sociais mais justas
que permitam as pessoas produzirem e ganharem o seu próprio pão com o esforço e
o suor do seu rosto? Qual a razão de tantas obras inacabadas? Porque a política
de atenção básica de saúde não funciona? Pra que tantos cargos comissionados
sem a devida realização da jornada de trabalho? Porque escolas públicas de
municípios infinitamente mais pobres têm um ensino de qualidade superior ao
nosso? O que estão fazendo aos nossos jovens? São perguntas que deveriam estar
na frente das discussões políticas e deveriam causar indignação em todos.
Mas não, parece que vivemos num paraíso! Quando falamos sobre a
inoperância da gestão pública frente aos desafios e a capacidade de
enfrentamento real das dificuldades, as pessoas não se sentem responsáveis nem
mesmo por ter escolhido o seu representante político, quanto menos por exigir
que honre o seu voto. Levantar reflexões do tipo soa mal para quem se beneficia
do poder, mas no íntimo da consciência eles sabem que o “povo” está sendo
lesado, mais que isso, condenado pelo imediatismo, egoísmo e omissão.
È patente a contradição na ação humana. O indivíduo sofre todas as
dificuldades que poderiam ser amenizadas pela boa prática administrativa no
âmbito municipal e mesmo assim contribui com esse sistema ao validar a sua
gestão ou ao achar que isso não lhe diz respeito.
O povo tem o poder de escolha, logo é legítima a representação. Nem
sempre! Os mais pobres é que sofrem mais em razão dos desmandos e pela falta de
compromisso dos gestores. Dizem que o povo tem o governo que merece! Mas como
exigir que esse mais pobre fizesse uma reflexão sobre a conjuntura política e
suas motivações? Para a grande massa de miseráveis o que importa é a
sobrevivência, é comer no dia que amanhece. Como se preocupar com a
representação política? Como se preocupar com os problemas sociais? Comer é do
instinto animal, o que comer é cultural...
Estamos perdidos? Não, não e não! Se a maioria da população é composta
por pessoas de bem como permitir que uns poucos produza tanto mal? É preciso
que haja uma mobilização no sentido de exigir que o poder público cumpra o
papel que, ao fim, é o de promover o bem-estar social. Em não havendo uma
decisão consciente desta autodeterminação, façamo-na valer! Cumpramos nós, o
nosso papel!!!
(*) Fernando Gomes, sociólogo, eleitor, cidadão e
contribuinte parnaibano.
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