5 de dez de 2016

O perigo de se trabalhar com gambiarras.

Passada a comoção nacional sobre o acidente e morte dos jogadores, comissão técnica, diretoria e jornalistas que acompanhavam o time do Chapecó, na Colômbia no final de novembro, ocorre partir agora pra uma situação que a gente bem que não gostaria de criticar, mas que infelizmente não se pode, como se diz, deixar passar batido, a clandestinidade com que certas empresas de aviação trabalham naquela região de fronteira do Brasil com outros países da América do Sul.
Quem conhece bem aquela região ou acompanha de perto seus problemas, sabe muito bem que, juntando Paraguai, Bolívia, Colômbia, Peru e a Venezuela, são países onde a lei passa bem longe quando o assunto é a segurança. É uma região inteira dominada por facções criminosas, ligadas aos grandes traficantes de drogas que por sua vez são acobertados por políticos que vivem, se perpetuam no poder e fazem carreiras e fortuna com a corrupção e a violência.
Quem algum dia foi ao Paraguai naquele tempo que era negócio comprar artigos importados deve lembrar sobre a falta de segurança, imundície, sobressaltos, riscos de extorsões que corriam as pessoas que se aventuravam a sair do Brasil com algumas centenas de dólares na burra pra trazer quinquilharias eletrônicas, roupas, perfumes e outras miudezas. Pois essa região inteira de fronteira está infestada de todo tipo de corrupção e esperteza.

O que aconteceu com aquela fatídica viagem de avião do Chapecoense já deve ter acontecido com outras empresas, pessoas e empresas sem que causasse comoção igual a esta mais recente. Porque naquela região o que mais existe é empresa de aviação com o perfil da Lâmia. Todos os indícios até agora levam à responsabilidade do piloto e dono da empresa, que, pelo que se deve imaginar, era também o cobrador de bilhetes, recepcionista, guarda do estacionamento do aeroporto, o entregador de pizza, o motorista de taxi em Medellín.
Eu me transporto agora pra nossa região, o Brasil, o Nordeste e mais aqui pertinho, Parnaíba. A situação agora não é mais avião, mas ônibus clandestinos. Quantas empresas de ônibus interestaduais estão neste exato momento viajando pra região de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Brasília, Belém, Paraguai, Colômbia, Peru, Chile, sem registro ou com registro falso no RNTC, o Registro Nacional de Transporte de Cargas ou na EMBRATUR?


Eu conheço gente que saiu daqui de Parnaíba pra São Paulo, Brasília, Minas Gerais, numa dessas empresas clandestinas, sem qualquer condição de segurança e conforto e passou poucas e boas pelo caminho! Pelo relato delas, o ônibus fez toda a viagem, como por exemplo, Parnaíba a São Paulo, dentro de uma semana, quando o tempo normal seria três dias pela Itapemirim. Segundo uma dessas pessoas a viagem foi feita na sua maioria trafegando por estradas clandestinas para desviar da fiscalização da Polícia Rodoviária Federal. De vez em quando a ge te só fica sabendo de tragédia com esse tipo de transporte. Mas aí alguém poderia perguntar, mas o que o acidente da Lâmia tem a ver com isso? Muita, mas muita coisa e semelhança. Na América do Sul nossa chamada fronteira seca, a interna, continental, é um problema crucial para as autoridades como a Polícia Federal, Receita Federal e as unidades do Exército e da Aeronáutica e até em alguns casos, da Marinha. Todo mundo sabe disso. Pelo visto a tal empresa, Lâmia era uma gambiarra.

Por Pádua Marques
Jornalista e Escritor

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